A Fotografia Zen

A plenitude se dá quando a intenção do ato fotográfico acontece simultaneamente com a decisão.

Essa é a busca do verdadeiro fotógrafo.

Os exercícios (meditar, caminhar em silêncio reparando nas formas e nos espaços vazios) exigem uma grande dose de paciência e resignação diante de  resultados infrutíferos, mas uma vez  bem sucedidos, desaparece o último vestígio da intenção e do empenho.

Nesse estado de desprendimento (sem propósito a alcançar) surge  uma atitude (a câmera age por si mesma; a espada maneja-se a si mesma). 

Da mesma maneira como se diz no tiro com arco que algo faz a pontaria e acerta, também com a câmera, algo substitui o eu, valendo-se da aptidão e habilidade adquirida pelo fotógrafo (espadachim)  com seu esforço consciente

E também aqui esse algo designa um poder que não se pode compreender e nem se impor pela razão, pois só se revela a quem o haja experimentado.

Há uma grande diferença entre uma foto apreendida com técnica e esforço e aquela foto que acontece muito raramente, quando todo o seu ser percebe que foi muito além da habilidade técnica, que capturou sem pensar a perfeição da arte, onde tudo se congregou, tudo virou beleza: uma unidade rigorosa de formas, captada numa fração infinitesimal do tempo, em que a mira uniu, como num relâmpago, a mente, a visão e o coração (Henri Cartier Bresson).

O sábio Takuan ensina: tudo é um vazio: você mesmo, a espada que é brandida e os braços que a manejam. Até a ideia de vazio desaparece. Desse vazio absoluto desabrocha, maravilhosamente, o ato puro

Como se pode espiritualizar uma habilidade técnica? Como converter o domínio soberano da técnica em puro ato do espírito? 

A resposta é que o discípulo, o aprendiz só progredirá se se desprender de toda intenção e do seu próprio eu. Ele tem que atingir um estágio no qual se desprenda de inúmeros adversários como a pressa, a razão, o olhar condicionado,  a preocupação em fazer a grande foto, os malabarismos visuais.

Essa sinceridade do diálogo entre observador e coisa observada é extremamente rica e por mais difícil que pareça, de repente acontece: a flecha é disparada por si própria, ela não conduz  mais a intenção do atirador.

O maior problema de cada um dos caminhos  é conseguir levar o aprendiz ao ponto de onde ele pode começar. 

Como dizer ao aluno o que significa captar o espírito criador a partir de palavras?

No livro de cabeceira de Henri Cartier Bresson “A arte cavalheiresca do arqueiro Zen”, de Eugen Herrigel, essa é a questão que acompanha a história de sua própria experiência como  discípulo de um mestre japonês do tiro ao arco Herriguel passou cinco anos tentando encontrar a maneira certa de soltar a corda do arco, pois isso deveria ser feito “não intencionalmente”, do mesmo modo que um fruto maduro rebenta a casca. 

O seu problema consistia em resolver o paradoxo de praticar incessantemente sem nunca “tentar”, e em largar a corda esticada, sem intenção. O mestre incitava-o a que continuasse constantemente a trabalhar e, precisamente ao mesmo tempo, a que nao fizesse qualquer esforço. A arte não pode ser aprendida a não ser que a flecha “dispare por si só”, a não ser que a corda seja solta “wu-hsin” e “wdu-nien”, isto é, sem “mente” e sem bloqueio, ou “escolha”. 

Após todos aqueles anos de prática chegou um dia em que a coisa simplesmente aconteceu- como, ou porquê, nunca Herriguel pôde compreender.

Isto deve acontecer na aprendizagem da fotografia ou pintura : a câmera deve agir por si própria, o pincel deve desenhar por si próprio. Isso significa que o aprendiz deve praticar constantemente… mas  sem  esforço. Do mesmo modo, na esgrima, o combatente não deve escolher primeiro um determinado bote e depois tentar dá-lo, visto que nesta altura, será já demasiado tarde.

Decisão e ação devem ser simultâneas. A ação não pode ser racionalizada, não se pode querer nada, não deve haver intenção de glória ou sucesso.

O mestre de Herrigel não queria que este misturasse os dois estados de esticar e soltar o arco. Aconselhou-o a que o esticasse até o ponto de maior tensão e a que parasse aí sem qualquer 

propósito na mente quanto ao que deveria fazer a seguir. Assim também, na maneira de ver o za-zen, devemo-nos sentar “só para nos sentirmos” e não deve existir qualquer intenção de alcançar nada.

Devemos olhar, contemplar e reparar sem pressa. Sem a busca da captura fotográfica.  Apenas ver, sem razão ou propósito. Absolutamente envolvido, entregue. De repente, a escolha acontece. O clic acontece. E pode ser que neste momento, o ato maravilhosamente puro de captar o espírito criador, se revele.

Ato absolutamente individual, prazer absolutamente único. 

Pureza da mente é o que devemos buscar.

A imagem capturada assim,  guarda uma força incrivel. Depois de processada  e mostrada, ganha uma força  poderosa. 

O observador, ao entrar em sintonia com a obra, transforma-se a si próprio,  o autor  se transforma, a obra se transforma, e o agente de tudo isso é aquele que vê,  sem lugar para onde ir.

Viver é surpresa permanente. Mas chegar a algum lugar é estar morto. Como diz o grande  Guimaraes Rosa, o real está na travessia, não na chegada.

Alcançar um resultado o mais depressa possível não tem nada a ver com a arte, com a fotografia. Isso torna o mundo sem substância.  

Os pontos de chegada são demasiadamente abstratos, demasiadamente euclidianos para se poderem apreciar, é quase como comer as extremidades de uma banana, desperdiçando o  conteúdo.

Como no zen, não há fim a alcançar, é uma viagem com o coração.

O zen é uma libertação do tempo. Se abrirmos os olhos e virmos claramente, se torna óbvio que não há outro tempo a não ser este instante, este “eterno agora”,  que o passado e o futuro são abstrações, sem qualquer realidade concreta.

Ao “espiritualizar” o ato fotográfico nos libertamos do banal, nos tornamos mais inventivos e nos aproximamos da verdadeira  luz da realidade, do estado criador puro.

Esse é o mote: para mim só existe um caminho, o caminho do coração, e nele eu viajo, viajo, olhando, olhando…sem fôlego.”

2 thoughts on “A Fotografia Zen

  1. Vera Paixão

    Agradeço sua publicação. Nesses tempos de solidão e isolamento, o zen, seja na leitura, seja na prática do zazen, traz a possibilidade de aprofundamento e transforma o olhar, preenchendo a vida de significado. Suas fotos são a materialização desse mergulho em águas abissais. Gratidão!! Sua inspiração inspira!! 🙏🏻❤️🙏🏻

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  2. Fabiola Mara Bonofiglio

    Adorei o texto! Já tinha buscado sobre fotografia zen mas não tinha encontrado algo tão direto como este texto. Tenho interesse em aprender fotografia justamente por esse viés. Sou diretora de arte de cinema, estou sempre observando os detalhes, e sinto alegria nesse olhar…. amo muito o q faço mas sinto falta de uma atividade ligada a arte que dê esse respiro. Que seja de ligada de produzir, construir outros cenários materialmente sendo que tanto já existe pronto no mundo para se captar. Obrigada pó texto e pela sua arte maravilhosa!

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