Por uma Nova Consciência

Sou fotógrafo viajante, jornalista, poeta, professor e intérprete do Brasil. 

Há exatos 50 anos caminho por esta terra abençoada e fértil, rompendo serras, montanhas e vales, varando rios e veredas, documentando a tormentosa caminhada deste povo

Incansavelmente, apaixonadamente.

Foi na Mata Atlântica, nas selvas da Amazônia, no agreste do cerrado e na aridez da caatinga que dei forma ao meu modelo de universo, à minha matriz criativa: 

lutar com palavras e fotografias por uma nova ética, uma nova consciência planetária.

Arte como agente transformador, resultado de uma profunda verdade interior, de um compromisso em defesa da vida.  

De tanto andar por este país continental me sinto autorizado, por tanta poeira que já tirei dos olhos, a gritar minha revolta aos quatro cantos.

Hoje, percorro dois, três mil quilômetros na beira da floresta e só vejo um paredão cinza de fumaça, o cheiro da terra calcinada, o gado pastando em áreas desmatadas, 

as carvoarias engolindo madeira, o garimpo sangrando a terra, a soja avançando pela Amazônia. 

E o que é pior, não vejo nenhuma prosperidade. 

A Amazônia, última grande reserva vegetal do planeta, sucumbe à ganância das quadrilhas de grileiros, das empresas agropecuárias responsáveis 

pela derrubada de mais de  10 milhões de metros cúbicos de madeira anualmente. 

Sua importância não encontra eco na consciência dos brasileiros. Não sabem  que a maior riqueza do seu país é esse grandioso patrimônio biológico, sem o qual não teremos condições de sobrevivência saudável. A destruição da maior floresta da Terra escancara nosso descaso, nossa conivência com o crime inominável. Estamos permitindo a desertificação do maior laboratório científico de nossa civilização, sem ao menos conhece-lo e estudá-lo adequadamente.É possível, dizem os cientistas, que lá existam centenas de produtos que podem revolucionar a saúde da Terra. A Amazônia abriga um terço das florestas tropicais e mais de 20 por cento das 1,5 milhões de espécies vegetais e animais do mundo. É a região mais rica em biodiversidade do planeta, mas suas florestas têm sido dilapidadas sem gerar benefícios sociais e econômicos.Hoje, quase 90 por cento da madeira extraída da floresta é ilegal, na base do corte raso, sem pagamento de impostos nem geração de empregos formais. Este país tem nome de árvore e está destruindo todas elas, em nome da ganância e do imediatismo. 

Toda árvore deveria ser considerada um patrimônio moral e um bem estratégico do país. 

As matas de araucária foram dizimadas e só resta um por cento de pé; da Mata Atlântica já foram 93 por cento, do cerrado 45 por cento, da Amazônia 17 por cento.

Com a mudança climática e o atual ritmo de desmatamento, preveem os cientistas que metade da grande floresta será derrubada nos próximos vinte anos.

O tempo ficou curto. No máximo em cinco anos, tamanha destruição pode desequilibrar a distribuição dos recursos hídricos em toda a América do Sul.

Somos depositários de um dos mais importantes patrimônios da humanidade, um espaço de fundamental importância para a sobrevivência da humanidade.

Já deveríamos ter assumido a recuperação dessas florestas há mais de duas décadas.

Os cientistas e estudiosos dizem que é urgente a implantação de uma moratória nacional para interromper a destruição e que o governo assuma a responsabilidade que lhe cabe 

de um novo modelo social e econômico para os 25 milhões de amazônidas.

É urgente também que se implemente uma revolução científico-tecnológica na Amazônia, com a formação de técnicos de alta especialização

nas mais diversas áreas científicas para ocupar e conhecer esse fantástico laboratório.

E uma outra revolução mais sutil, mas igualmente importante: o modo como o brasileiro encara Amazônia, o que realmente quer para a Amazônia. 

A Amazônia pode chegar ao ponto trágico da Mata Atlântica, que foi praticamente dizimada e antes recobria quase toda a faixa do litoral.

 Aí o velho Samuca, meu amigo do Parque Nacional Grande Sertão Veredas, vai estar carregado de razão: 

“Estamos andando pela terra como um bando de cegos. Donde só se tira e num si põe um dia tudo mais tem que se acabar”.

Meu trabalho carrega consigo o anseio de salvar o que ainda pode ser salvo.

Ele clama por indignação e atitude já. Só assim a Amazônia será salva.

2 thoughts on “Por uma Nova Consciência

  1. Daniela Brasileiro

    Endosso suas palavras carregadas de revolta pela devastação de um dos maiores patrimônios verdes da humanidade.

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  2. Gisela

    Baita texto Araquém . Parabéns sempre por seu trabalho e por toda verdade escrita no texto, vibdo de quem conhece. Sou fã incondicional de sua Fotografia . 👌🏼🌟📷

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