SUSTENTABILIDADE OU MORTE

Escrevi este texto em 1990.

Publico de novo pela sua gritante atualidade.

“Certa vez, em Cubatão, no início dos anos 70, uma tempestade de chuva ácida caiu sobre a minha cabeça. Meu corpo foi tomado pela poluição líquida. Enquanto corria para me abrigar percebi que toda aquela poluição é que gerava crianças sem cérebro e que a desgraça atingia sobretudo os mais miseráveis. Ali, naquela terra arrasada, dei meus primeiros passos na compreensão do que era sustentabilidade. Compreendi que nossas vidas dependem de uma Terra sadia – e não há Terra sadia sem bem estar social!

Como diz o velho Samuca, habitante do parque nacional  Grande Sertão Veredas, em Minas Gerais, homem que nunca frequentou escola… “nós estamos andando na Terra como um bando de cegos. Donde só se tira e num si põe, um dia tudo mais tem que se acabar”.

Com o aquecimento global em pauta, sei de crianças e adolescentes aterrorizados com o que julgam ser o fim do mundo. Precisamos urgentemente dizer-lhes – porque somente deles pode advir uma nova ética e consciência planetária – que a Terra está realmente em agonia, atingiu seu estado crítico por conta de nosso comportamento destrutivo e egoísta. Extraímos sem repor, envenenamos o ar, poluímos as águas, destruímos em  segundos séculos de maravilhosa construção.

Precisamos de um esforço extraordinário para ensinar a essas crianças uma nova forma de viver – talvez a única possível de agora em diante: respeito a tudo o que é vivo, responsabilidade cotidiana em cada ato; a percepção de que tudo está interligado, que Terra e Homem formam um único organismo e que o futuro, só será menos aterrorizante se nos reconciliarmos com as sábias leis que regem este vasto complexo biológico.

Tudo o que temos feito é muito pouco. Navegamos entre a omissão e a hipocrisia. Veja o que estamos deixando acontecer com a maior riqueza deste país, a floresta amazônica, imensa amplitude verde de mais de cinco milhões de quilômetros quadrados, de fundamental importância para o clima do planeta. Já permitimos que 20 por cento de sua área fosse arrasada, o equivalente a duas Alemanhas e a três estados de São Paulo. 

A nossa constituição declara que a floresta amazônica é patrimônio nacional! Somos um país que tem seu nome derivado de uma árvore, um motivo a mais para que ver cada árvore como um monumento vivo de nossa cultura e história.

A devastação já deveria ter sido interrompida há mais de uma década, dizem os cientistas, e a recuperação das florestas já deveria ter sido iniciada em igual tempo. Como podemos permitir que os governos ignorem a ganância dos senhores de terras, a voracidade das grandes madeireiras, o enriquecimento ilícito, a soja e outras monoculturas avançando pela Amazônia, as carvoarias e mineradoras, o garimpo sangrando a terra e as águas, a Mata Atlântica no fim…?

Temos que ensinar urgentemente aos meninos com medo do futuro que é possível mitigar os efeitos do aquecimento global, mas para isso é preciso encarar grandiosas responsabilidades. Ensinar a respeitar  a natureza como parte de nós mesmos, consumir com consciência, reduzir drasticamente o consumo de  carne de gado, produzir menos lixo, reciclar o que for possível, consumir pouca eletricidade, pouca água, andar mais a pé ou de bicicleta. Que a partir de agora temos de procurar matérias-primas com certificação, e isso vale muito para a madeira, que deve ser obtida em florestas cultivadas e vir com selo de origem. Ensinar que é preciso exigir a imediata interrupção do desmatamento na Amazônia, nas áreas de mata atlântica e nos demais ecossistemas.

E numa escala mais ampla, temos de difundir o pensamento de que é preciso substituir o carbono fóssil por fontes de energia mais seguras; lutar contra toda agressão aos habitats naturais, combater a fome e a miséria, transformar esta estrutura social injusta, desigual e predatória que corrói o país. Porque as chances de a Terra continuar generosa e confortável são razoáveis, mas dependem da construção de uma sociedade mais justa e em harmonia com a natureza. Se ensinarmos as crianças agora, daremos um sentido maior às nossas vidas.

One thought on “SUSTENTABILIDADE OU MORTE

  1. Rose

    O homem não vai parar até não destruir tudo. Nossos chefes de estado não se importam. Um dia tive esperanças, acreditei que a humanidade caminhava para um lugar melhor, mas o custo do chamado desenvolvimento é muito grande e destruidor.
    Mal posso imaginar o quanto dói em você por ter visto tudo o que já viu de perto.

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