A Grande Viagem – Terra Brasil

No final dos anos 70, inspirado pelas ideias do fotógrafo americano, Ansel Adams (1902-1984) e movido por um irrefreável idealismo, decidi fazer um livro que contemplasse todos os parques nacionais do Brasil. Ninguém havia feito isso antes.

Estava começando uma longa travessia que durou 15 anos e que transformou completamente a minha história pessoal e a minha visão de mundo.

Era uma viagem de Ulisses, uma verdadeira Odisseia. Ainda mais para um fotógrafo tupiniquim, que até então pouco conhecia da geografia profunda de sua terra. E que tinha uma enorme dificuldade em ver o seu trabalho publicado, já que simplesmente não havia veículo e ecologia era uma palavra para letrados.

Em companhia do assistente, Marcos Blau, vivemos uma experiência extraordinária, com direito a sequestro por índios Caiapós Menkragnoti no rio Baú; pane de avião monomotor e pouso forçado no Pará, canoa desgovernada no rio Cotingo em Roraima; ameaça de morte com fuzil apontado na Transamazônica; algumas malárias. Documentamos os Parques Nacionais do Jaú (AM); Monte Roraima, Viruá e Serra da Mocidade (RR), Cabo Orange (AP), Montanhas do Tumucumaque (PA) e Serra do Divisor (AC).

Quando os obstáculos surgiram no meio da jornada, sobretudo de ordem psicológica, a lembrança da saga de Adams me encorajou a prosseguir.

Adams era para mim um monstro sagrado da fotografia de natureza, um visionário que acreditou na força transformadora da sua linguagem.

Foto: João Marcos Rosa

Em 1938, ele produziu o livro de edição limitada “Sierra Nevada: John Muir Trail” retratando a ameaça de descaracterização do vale de Yosemite, das florestas de sequoias e do Grand Canyon. Não só o sucesso do livro, mas a reverberação de seus testemunhos na imprensa, chegaram até o Congresso e foram decisivas para designação destas regiões como parques nacionais.

Eram 48 unidades de conservação à época que comecei minha jornada pelo Brasil, sendo 08 delas na Amazônia, a maioria desconhecidas dos brasileiros e em locais de difícil acesso.

Comecei com os parques mais próximos à cidade onde morava, Santos, no estado de São Paulo, como o Parque Nacional de Itatiaia, no estado do Rio de Janeiro, a mais antiga unidade de conservação do Brasil, fundada em junho de 1937; o Parque Nacional da Serra da Bocaina, entre São Paulo e Rio de Janeiro e; depois os parques de Minas Gerais, Serra do Cipó, Serra da Canastra, Pico da Bandeira. De parque em parque, fui percorrendo o Brasil.

Todas as minhas sugestões de pauta para as revistas que colaborava tinham como assunto os parques nacionais, todo o meu ganho pessoal era destinado à viabilização das viagens.

Finalmente, já na segunda metade da década de 90, faltava documentar oito parques da Amazônia. Decidi empreender uma expedição que inicialmente demoraria três meses, mas acabou levando cinco.

O derradeiro parque foi o Pico da Neblina, o ponto mais alto do país, com 2994 metros, no norte do Amazonas. Foram 17 dias na mata, ida e volta.

Atingimos o pico em 25 de março de 1995 com dois carregadores yanomamis e os guias Branco e Criolo.

Alegria de ver concluída a grande jornada, o fez escrever em um caderninho velho, zelosamente guardado pelos aventureiros em um buraco da pedra que sustenta a bandeira do Brasil:

“Aqui, no ponto mais alto do Brasil, consagro minha vida a criar e repartir belezas”

O livro TERRABRASIL foi publicado em janeiro de 1998 e transformou-se numa publicação pioneira e inspiradora para muitos fotógrafos. Fez um sucesso fulminante e hoje é o livro de fotografia mais vendido no país.

Como disse o bruxo Don Juan para Carlos Castaneda: para mim só existe um caminho, o caminho do coração e nele eu viajo, viajo, olhando, olhando… sem fôlego.

6 thoughts on “A Grande Viagem – Terra Brasil

  1. Mara beira

    Demais maravilhoso

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  2. Ana Paula Sancinetti Ribeiro

    Araquém , vc é especial demais , muito inteligente e donatário de bençãos divinas várias ! Que Deus te proteja e te abençoe sempre , vc atingiu o seu Dharma , o seu propósito de vida na Terra .
    Um beijo com enorme carinho e admiração

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    1. Larissa

      Sou sua fa

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  3. Luciana

    Seu relato já é uma viagem. Seu espírito é o das pessoas livres, que amam a vida, a natureza e a beleza. Parabéns pela incrível jornada!

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  4. Cesar Eugênio Dias

    Araquém, Mestre!
    Eu me lembro da 1a vez que eu vi uma foto sua. Foi na Veja lá pelos anos 80 e, se não me engano, vc tinha invadido meio sem querer querendo as terras de um sujeito fino, elegante e sincero chamado Cecílio do Rêgo Almeida…
    Era uma foto da Mata, intocada, pura, linda… aquela imagem ainda é meu arquétipo de paraiso…
    Conhecendo mais a tua obra, chego a me irritar quando dizem que vc é um dos melhores fotógrafos da natureza do Brasil; tu é um dos melhores brasileiros que eu conheço!!!!
    Namastê Mestre, e até sempre…

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