A Mira e o Alvo

O verdadeiro fotógrafo da natureza, como de resto qualquer fotógrafo, deve escolher o caminho com o coração e nele viajar incansavelmente, contemplando como pessoa inteira tudo o que é vivo. Absolutamente íntegro, sem propósito a alcançar, sem submissão a regras e fórmulas, sem necessidade de parecer brilhante ou original. Só assim, autêntico e livre, pode captar o espírito criador em movimento e criar coisas belas.

Aquele que mergulha na viagem do ver tem que estar sempre com as portas da percepção abertas. Sabe que diante do eterno, precisa esquecer de si próprio. A criação é o que importa, gesto fundamental, caminho de conhecimento, poderosa arma de encontrar o mundo.

O ato criativo é contínuo e sem fim. A prática sempre renovada de contemplar humaniza a visão, anula verdades, permite a inventividade, realça o eu interior.

A recompensa é a experimentação mística do encontro com a beleza. O fotógrafo sente, neste momento fugaz, algo parecido com o satori hindu, um momento de revelação, um indefinido e maravilhoso prazer.

Nesta respeitosa relação consigo mesmo, o fotógrafo cria algo de original e significativo, com espontaneidade e fluência. O observador se confunde com a coisa observada, o vazio se instaura. O que estava contido volta a pulsar, o que antes era pressentimento agora é realização. A pureza do seu diálogo lhe diz que na verdade, por mais fotos que faça, por mais poeira que tire dos olhos, continuará andando solitário com sua câmera. Mas, ele também sabe que está aprendendo outra arte bem maior: a arte de não ser coisa alguma, de não ser mais que o nada, de dissolver-se a si próprio no vazio entre o céu e a terra.

Araqúem Alcântara

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